Por Soraya Rodrigues de Aragão - 20 de dezembro de 2022
Psicoterapeuta,
expert em Medicina Psicossomática
Mais um ano se aproxima e arquetipicamente mais uma vez renovamos nossos
votos, esperanças e promessas, sendo um momento muito propício para reflexões
profundas, do que temos feito conosco, com a nossa vida, dos nossos sonhos e
projetos.
De alguma forma, é um momento de cura interior, de libertação, de
renascimento, de transmutação. Simbolicamente deixamos morrer parte de nós para
promovermos um divisor de águas e nos darmos novas chances para nos renovarmos
mais uma vez. Porém, na maioria das vezes nos esquecemos de nos conectarmos
conosco para promovermos uma escuta sincera, profunda e catalisadora de
transformações das nossas reais necessidades em nosso projeto de vida neste
mundo.
Quantas vezes temos reverberado no autoengano, sendo portanto necessário
abandonar o campo de batalha infrutífero que somente nos causam dor, confronto,
desconforto, desgaste e derrotas, sendo materializado por pessoas que queremos
ao nosso lado a todo custo, lugares desabitados de sentimentos, circunstâncias
em que não há reciprocidade e propostas decadentes que gritam em seu último
suspiro por serem abandonadas. Isto porque de algumas experiências praticamente
restou somente a nós mesmos e a nostalgia de vivências que não poderão mais
retornar, somente ressignificar. Quando abandonamos o confronto com batalhas
infundadas, nos desarmamos com a vida para podermos então voltar o nosso olhar
para o autocuidado e para outras perspectivas de tudo o que nos acontece.
Infelizmente decidimos muitas vezes por não desapegarmo-nos, negando-nos
que a vida nos presenteie novas chances para nos sentirmos integrados e vivos
mais uma vez.
O desfecho de uma etapa da vida é como um pôr do sol que acena a sua despedida,
em que suas cores vibrantes se desvanecem no desbotar de cores imprevistas, em
que o calor e a luz natural da vida se declinam para então podermos contemplar
o brilho das estrelas, nos proporcionando sentimentos que se abraçados com a
alma, nos trazem uma felicidade nostálgica de termos vivido cada momento
daquela etapa com todos os seus aspectos e aprendizados que nos possibilitam
agora um sentimento de gratidão e serenidade do que foi finalizado em
consonância com as leis naturais da vida.
Esta fase nos envolve em um certo recolhimento e introspecção que
proporcionam uma reavaliação da nossa história, dos desafios superados e do
crescimento que nos foi proporcionado. Contudo, se houver resistências, se não
aceitarmos as correntes desbravadoras do rio da vida que segue seu curso que
tudo lava e que tudo leva, se perdurar a revolta (in)contida no sentimento da
perda, em lutar contra o fluxo do que vira pó’ do nada, poderemos incorrer no
erro de interpretar cada etapa que se finda nesta ciclicidade da vida como
desilusão, turbulência, desalento emocional, tempo perdido, injustiça, constrangimento
e falimento. Em outras palavras, não aceitamos o fim. No entanto, todo fim traz
consigo um novo recomeço, caso nos libertemos do que ficou no passado.
Deste modo, o melhor a ser feito é nos permitirmos adentrar em novas
estradas e outros caminhos para que estes nos acolham e nos conduzam para novos
significados de vida. Ninguém permanecerá eternamente na mesma escola infantil,
tampouco na mesma metodologia, é preciso avançar. Neste contexto, não poderemos
viver harmonizados num espectro inexistente, em espaços vazios, em lugares
sombrios ou desabitados, em circunstâncias que foram desconfiguradas.
Não se pode haver progresso quando sempre aprendemos a mesma lição,
degustamos os mesmos sabores, atravessamos as mesmas pontes ou desbravamos os
mesmos trajetos. Sendo assim, é contraproducente nos acomodar naquilo que já se
conhece, que já se sabe, que é mais cômodo, embora não seja a melhor proposta
para nosso crescimento existencial.
Nesta espiralidade da vida, tudo está em constante movimento e transformação,
portanto permitamos desapegar-nos ao que se foi, ao que feneceu, ao que já não
oferece abrigo, aos sentimentos endereçados a pessoa amada e que não ressoam,
que já não encontram eco ou reciprocidade. Este é o momento de vislumbrarmos a
imagem da nossa essência espelhada nas águas cristalinas da nossa própria
verdade para percebermos que é necessário desapegar-se do que se foi para
empreender outras direções. Portanto, o melhor a ser feito em alguns casos é
não teimar com o fluxo da vida, não discutir com as leis existenciais, com o
que somente deixou um espaço vazio e que precisa ser preenchido de novos
sentidos. Por que o nosso medo, muitas vezes não é somente a questão da perda
em si, mas principalmente em saber lidar com a ausência, com o vazio que ali
restou.
Que o próximo ano nos surpreenda em prosperidade, que transformações
profundas e positivas aconteçam em nossas vidas, mas sobretudo que as
dinamizemos. E que nestas experiências que nos impulsionam para um novo ciclo,
que possamos nos conectar para a construção do nosso “eu” inacabado e
impermanente, sempre receptivos e gratos pelo que há de vir e pelo que já se
foi. Que possamos celebrar a vida sempre em expansão, mais uma vez e a cada
instante. E que esta nos oferte mais um b
rinde e que nos dê boas vindas ao novo que se inicia.
Texto da psicoterapeuta, expert em Medicina Psicossomática, Soraya
Aragão.
http://www.alquimiadavida.org.
Soraya Rodrigues de Aragão é
psicóloga, psicotraumatologista, escritora e palestrante. Realizou seus estudos
acadêmicos na Unifor e Università di Roma. Equivalência do curso de Psicologia
na Itália resultando em Mestrado. Especializou-se em Psicotraumatologia pela
A.R.P. de Milão. Especializanda em Medicina Psicossomática e Psicologia da
Saúde - Universidad San Jorge (Madri) e Sociedad Española de Medicina
Psicosomática y Psicoterapia. Sócia da Sociedade Italiana de
Neuropsicofarmacologia e membro da Sociedade Italiana de europsicologia. Autora
do livro Fechamento de Ciclo e Renascimento: este é o momento de renovar a sua
vida. Edições Vieira da Silva, Lisboa, 2016; e do Livro Digital:
"Transtorno do Pânico: Sintomatologia, Diagnóstico, Tratamento, Prevenção
e Psicoeducação. É autora do projeto "Consultoria Estratégica em Avaliação
Emocional'.
Publicado por: Portal Raízes.
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